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segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Mazelas do ensino superior

Por Gabriel Bocorny Guidotti (*)

Um amigo veio me comunicar uma situação sui generis. Ele está no último semestre da faculdade, mas no meio de um imbróglio: a instituição não pretende ofertar todas as disciplinas que faltam para finalizar o currículo do curso. O motivo? Custos. Não há alunos suficientes para fechar uma turma. Meu amigo terá duas opções a partir de agora. Ora entra na justiça, a exemplo do que muitos discentes estão fazendo, ora tenta realizar as cadeiras não oferecidas em outra instituição. Dos dois modos, há perdas.
Espanta-me o surgimento de cursos de graduação no Brasil. Abrir, pelo visto, é fácil. Difícil é administrar as condições para que o aluno tenha um bom proveito do serviço contratado. Na instituição em que meu amigo faz faculdade, o setor de publicidade aparece com força em diferentes mídias de divulgação. E no anúncio constam os quatro anos que ele esperava cumprir em jornalismo. Na prática, longe do mundo onírico do marketing, a situação não tem tanto brilho. Semestres imprevistos brotam pelo caminho.
Os alunos que sofrem com esse problema ficam entre a cruz e a espada. Jogar a sujeira no ventilador e atear fogo no próprio diploma ou consentir lutando? É justo atrasar a formatura de um estudante em função da incapacidade administrativa da instituição de ensino que contratou? Evidentemente que não. Mas essas são mazelas dos novos tempos. As faculdades querem números, não importando os meios.
Os números amealham o dinheiro necessário para manter a instituição andando. Aluno é negócio, e dos mais rentáveis. Por essa razão, além dos cursos de graduação, surgiram nos últimos anos centenas de cursos de pós-graduação. Em tese, uma continuidade da carreira acadêmica. Na realidade, aulas maçantes, pouco inspiradas, e cuja representatividade no currículo raramente é reconhecida pelo insosso mercado de trabalho de nosso país.
O Ministério da Educação tem imensa responsabilidade na formação de profissionais conscientes, mas faz vista grossa. A abertura desenfreada de cursos não é acompanhada por uma fiscalização eficiente. Resta ao Judiciário dar o seu veredito, em muitos casos, tendo em vista a omissão das instituições de ensino. Há situações intoleráveis, como a de meu amigo. Lamentável. A faculdade deve colaborar para a qualificação discente, não criar empecilhos. Parece que essa obrigação, mesmo que por força de contrato, está morrendo.
(*) Gabriel Bocorny Guidotti, bacharel em Direito e estudante de Jornalismo de Porto Alegre – RS

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

A educação está ficando muito cara?


Por Emanuel Gutierrez Steffen (*)

Muitas pessoas reclamam sobre como a educação tornou-se tão cara. Na maior parte do tempoelas estão erradas. A escolarização tornou-se mais cara, mas considere o custo dos seguintes recursos educacionais:

- Khan Academy para aprender matemática: Gratuito.
- Louvre Online para estudar história da arte: Gratuito.
- Google Translate para aprender dezenas de línguas: Gratuito.
- Wikipedia para qualquer assunto: Gratuito.
- Vários cursos onlines gratuitos ministrados por grandes professores.
- Project Gutenberg‘s collection of classic books: Free.
- A coleção de livros clássicos do Project Gutenberg: Gratuito.
Para quase todos nós, o custo da informação caiu drasticamente. Então, se alguém não sabe muito sobre história, biologia ou língua francesa, essa é uma opção. É claro, para ter acesso a todo este material gratuito, é indispensável o acesso à internet. Assim, deveríamos indagar qual é o custo do acesso à internet e se vale a pena pagá-lo. O site PSFK fez a seguinte pergunta: você desistiria do acesso à internet pelo resto de sua vida por US$ 1 milhão de dólares? Nada de e-mails, mídias sociais, vídeos em streaming, online banking, fotos de gatos e assim por diante. A maioria das pessoas diz: É claro que não! No seu caso, talvez, você não esteja certo e tenha que refletir sobre a proposta. Em ambos os casos, a internet é de grande valor para você.
Agora pergunto: quanto você paga pelo acesso à internet? Suponha que você pague US$ 1000 dólares por ano – centenas de dólares diretamente para acesso doméstico, e algumas centenas, indiretamente, para o acesso wi-fi num café ou em qualquer espaço público. Se você viver 80 anos, então o seu custo com internet será US$ 80 mil dólares. A diferença entre o que você paga por ela e o que ela vale para você é enorme: mais de US$ 900 mil para a maioria de nós.
E isto faz sentido se começarmos a contabilizar os custos da educação sem a internet: qual o valor de uma coleção completa da EncyclopediaBritannica? Qual o valor de uma biblioteca com todas as obras clássicas? Qual o valor de uma viagem ao Louvre? Qual o valor de um tutor de matemática e línguas estrangeiras, e tantas outras coisas?
Todas as reduções de custo baseadas em tecnologia são impressionantes e maravilhosas – e úteis ao direcionar nossa atenção para onde estão os reais custos da educação.Frequentemente enraizado dentro de nós está uma identificação de educação com escolarização. Embora a educação possa ocorrer em uma escola (escolarização), a educação é sempre algo que obtemos por conta própria, seja na escola ou não. Nada pode entrar em nossa mente como conhecimento, e nada pode tornar-se uma habilidade exceto se quisermos que assim seja.
Então, o custo real da educação é o esforço que cada indivíduo coloca em sua busca. Este esforço é natural nas crianças, pois já nascem curiosas e exploratórias. E ao se desenvolverem, as crianças são estimuladas pelos novos poderes e habilidades que seus corpos e mentes jovens adquirem, reforçando seu compromisso natural com a educação.
Então, qual é o valor agregado da escolarização?Na melhor das hipóteses, os aparatos das escolas – professores, administradores e infraestrutura – são facilitadores. Como professor, por exemplo, você pode ser uma fonte de conhecimento, uma fonte de motivação, e um guia. Conquanto você possa mostrar coisas maravilhosas a uma criança, você não pode fazê-la pensar. Ela tem de fazê-lo por conta própria. Você pode dar uma aula interativa e dinâmica, mas a criança tem que assimila-la. Você poder comprar milhares de livros, mas ela tem que abri-los. Você pode dar uma guitarra ao seu filho, mas ele tem que pegá-la e tocá-la. Você pode construir uma gaiola gínica ou um gira-gira, mas as crianças têm que escolher usá-los.
Na pior das hipóteses, todavia, as escolas podem ser dificultadoras, e isso pode ser seu maior custo.Considere como, em grande parte da escolarização, a educação é apresentada aos jovens. Eles são informados que: você deve ir para a escola. Sem escolha. E você deve trabalhar em coisas que outrosdecidiram. O professor é o chefe – faça o que ele disser. Além disso: na aula, todo mundo fará amesma coisa, ao mesmo tempo, e da mesma forma. As respostas corretas já são conhecidas, e estão nas últimas páginas do livro. Finalmente, todo mundo será examinado ao mesmo tempo e da mesma forma. Não falhe, pois isso é ruim e motivo de vergonha. É motivo de surpresa que tantas crianças comecem o jardim de infância entusiasmadas, alguns anos depois, odeiem a escola? Existe algo mais desmotivador que seguir e repetir? Existe algo mais desumanizador que receber ordens e fazer coisas de forma conformista?Então: ao custo financeiro da escolarização devemos adicionar os custos social e psicológico. Talvez os custos mais altos da escolarização sejam todos os obstáculos que colocamos no caminho das crianças. Para aprender, as crianças frequentemente têm que superar o tédio, recuperando-se da experiência de um estado quase zumbi.
Contraste um sistema de aprendizado popular, mas frequentemente vilipendiado – o videogame. Por que a maioria dos jovens (e adultos) permanece horas absorta em videogames? Por um lado, existe a variedade de mundos que podemos explorar. Por outro, existe a possibilidade da escolha do jogo e de quais objetivos perseguir. Além disso, existe a sensação de crescimento e desenvolvimento ao i) memorizar personagens (habilidades e movimentação), ii) solucionar problemas, explorar, testar, iii) lidar com frustração, iv) aumentar a coordenação motora, visual, sensorial e auditiva. E por fim, existe a sensação de estarmos no controle, podendo repetir a fase quantas vezes quisermos. E quando passamos de fase, adquirimos uma sensação de autocontrole e apoderamento.
Devemos, portanto, celebrar inovadores como Sugata Mitra e seus experimentos em ambientes de aprendizagem auto-organizados. Em diversos vilarejos pobres, Mitra instalou computadores com acesso à internet em uma parede – e foi embora. As crianças eventualmente descobriram o equipamento e começaram a brincar com ele, apesar de não ter nenhum conhecimento computacional ou domínio sobre línguas estrangeiras. Os resultados do experimento chamado“Buraco na Parede” não supervisionado são impressionantes. Todos nós podemos concordar com a famosa frase de Ann Landers: “se você acha a educação é cara, experimente a ignorância”. Mas vamos considerar de forma mais ativa a inquietante possibilidade que a deseducação é ainda mais cara, e que muitos métodos de escolarização tradicionais prejudicam a educação. Até a próxima!
Fonte - Stephen Hicks|libertarianismo.org
Disclaimer – A informação contida nestes artigos, ou em qualquer outra publicação relacionada com o nome do autor, não constitui orientação direta ou indicação de produtos de investimentos. Antes de começar a operar no SFN - Sistema Financeiro Nacional o leitor deverá aprofundar seus conhecimentos, buscando auxílio de profissionais habilitados para análise de seu perfil específico. Portanto, fica o autor isento de qualquer responsabilidade pelos atos cometidos de terceiros e suas consequências.
(*) Emanuel Gutierrez Steffen, criador do portal www.mayel.com.br

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

No Japão, alunos limpam até banheiro da escola para aprender a valorizar patrimônio

Para educadores do país, prática ensina estudantes a ter responsabilidades e consciência social, preservando o que é público para as próximas gerações.

Ewerthon TobaceDe Tóquio para a BBC Brasil
Alunos ajudam em limpeza de escola no Japão (Foto: Marcelo Hide/BBC)Alunos ajudam em limpeza de escola no Japão (Foto: Marcelo Hide/BBC)
Enquanto no Brasil, escolas que "obrigam" alunos a ajudar na limpeza das salas são denunciadas por pais e levantam debate sobre abuso, no Japão, atividades como varrer e passar pano no chão, lavar o banheiro e servir a merenda fazem parte da rotina escolar dos estudantes do ensino fundamental ao médio.

Nas escolas japonesas, também não existem refeitórios. Os estudantes comem na própria sala de aula e são eles mesmos que organizam tudo e servem os colegas.
"Na escola, o aluno não estuda apenas as matérias, mas aprende também a cuidar do que é público e a ser um cidadão mais consciente", explica o professor Toshinori Saito. "Ninguém reclama porque sempre foi assim."
Depois da merenda, é hora de limpar a escola. Os alunos são divididos em grupos, e cada um é responsável por lavar o que foi usado na refeição e pela limpeza da sala de aula, dos corredores, das escadas e dos banheiros num sistema de rodízio coordenado pelos professores.
Reunidos em grupos, alunos se revezam na tarefa de limpar a escola no Japão. (Foto: Marcelo Hide/BBC)Reunidos em grupos, alunos se revezam na tarefa de limpar a escola no Japão. (Foto: Marcelo Hide/BBC)
"Também ajudei a cuidar da escola, assim como meus pais e avós, e nos sentimos felizes ao receber a tarefa, porque estamos ganhando uma responsabilidade", diz Saito.
Michie Afuso, presidente da ABC Japan, organização sem fins lucrativos que ajuda na integração de estrangeiros e japoneses, diz ainda que a obrigação faz com que as crianças entendam a importância de se limpar o que sujou.
Um reflexo disso pôde ser visto durante a Copa do Mundo no Brasil, quando a torcida japonesa chamou atenção por limpar as arquibancadas durante os jogos e também nas ruas das cidades japonesas, que são conhecidas mundialmente por sua limpeza quase sempre impecável.
Alunos limpam até o banheiro da escola. (Foto: Marcelo Hide/BBC)Alunos limpam até o banheiro da escola. (Foto: Marcelo Hide/BBC)
"Isso mostra o nível de organização do povo japonês, que aprende desde pequeno a cuidar de um patrimônio público que será útil para as próximas gerações", opina.
Estrangeiros
Para que os estrangeiros e seus filhos entendam como funcionam as tradições na escola japonesa, muitas prefeituras contratam auxiliares bilíngues. A brasileira Emilia Mie Tamada, de 57 anos, trabalha na província de Nara há 15 e atua como voluntária há mais de 20.
Michie Afuso, da ABC Japan, sugere um intercâmbio na área educacional entre Brasil e Japão (Foto: Ewerthon Tobace/BBC Brasil)Michie Afuso, da ABC Japan, sugere um intercâmbio na área educacional entre Brasil e Japão (Foto: Ewerthon Tobace/BBC Brasil)
"Neste período, não me lembro de nenhum pai que tenha questionado a participação do filho na limpeza da escola", conta ela.
Michie Afuso diz que, aos olhos de quem não é do país, o sistema educacional japonês pode parecer rígido, "mas educação é um assunto levado muito à sério pelos japoneses", defende.
Recentemente no Brasil, um vídeo no qual uma estudante agride a diretora da escola por ela ter lhe confiscado o telefone celular se tornou viral na internet e abriu uma série de discussões sobre violência na escola.
Educadores japoneses defendem que ação ajuda na construção de noções de responsabilidade. (Foto: Marcelo Hide/BBC)Educadores japoneses defendem que ação ajuda na construção de noções de responsabilidade. (Foto: Marcelo Hide/BBC)
Outros casos de agressão contra professores foram destaques de jornais pelo Brasil nos últimos meses, como da diretora que foi alvo de socos e golpes de caneta em Sergipe e da professora do Rio Grande do Sul que foi espancada por uma aluna e seus familiares durante uma festa junina.
No Japão, este tipo de abuso dentro da escola é raro. "Desde os tempos antigos, escola e professores são respeitados. Os alunos aprendem a cultivar o sentimento de amor e agradecimento à escola", diz Emilia.
Violência
No ano passado, durante as eleições, a BBC Brasil publicou uma série de reportagens sobre a violência de alunos contra professores no Brasil. As matérias revelaram casos de professores que chegaram a tentar suicídio após agressões consecutivas e apontaram algumas das soluções encontradas por colégios públicos para conter a violência – da militarização à disseminação de uma cultura de paz entre escolas e comunidade.
Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que ouviu mais de 100 mil professores e diretores de escola em 34 países, o Brasil ocupa o topo de um ranking de violência em escolas – 12,5% dos professores ouvidos disseram ser vítimas de agressões verbais ou intimidação pelo menos uma vez por semana.
"Assim como o Brasil tem um programa de intercâmbio com a polícia japonesa, poderíamos ter um na área educacional", propõe Michie, da ABC Japan, ao se referir ao sistema de policiamento comunitário do Japão que foi implantado em algumas cidades do Brasil.
A brasileira lembra que a celebração dos 120 anos de relações diplomáticas entre Brasil e Japãoseria uma ótima oportunidade para incrementar o intercâmbio na área social e não apenas na comercial.
"Dessa forma, os professores poderiam levar algumas ideias do sistema de ensino japonês para melhorar as escolas no Brasil", sugere Michie.
Em escola japonesa, os próprios alunos ajudam a servir merenda aos colegas. (Foto: Arquivo pessoal)Em escola japonesa, os próprios alunos ajudam a servir merenda aos colegas. (Foto: Arquivo pessoal)

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Por que nós professores avaliamos os alunos?

Por Ronaldo Mota (*)
Avaliar certamente tem a ver com aprovar ou não os educandos. Mas esse não deve ser o único motivo, talvez nem o principal. Tão ou mais importante que medir o quanto sabem nossos alunos, é tentar obter dados que permitam conferir e repensar permanentemente as abordagens educacionais adotadas. Se possível, ao avaliarmos possamos conhecê-los melhor e, porque os conhecemos e os reconhecemos individualmente, sejamos capazes de traçar percursos de aprendizagem adequados para eles.

Nas abordagens mais comuns, boa parte das avaliações dá-se por meio de questões ou tarefas que pretendem responder se o aluno sabe ou não sabe. Sendo assim, em geral, importa quase que exclusivamente se as repostas às questões estão certas ou erradas. Normalmente, as respostas erradas, além de indesejáveis, são, em geral, inúteis do ponto de vista das consequências futuras no próprio processo em curso. O fruto da avaliação, nesta perspectiva mais simplista, não vai além de um atestado que pretende informar se o estudante domina ou não aquele conteúdo específico.
Para os professores mais comprometidos, as respostas erradas têm a mesma relevância que as certas. Se as respostas certas atestam algum domínio do conteúdo, as erradas permitem identificar eventuais lacunas, possíveis conceitos equivocados, ritmos inadequados de aprendizagem, dificuldades em interpretar texto, falta de foco e concentração, ausência de atitudes e iniciativas etc.
Na verdade, não somente respostas às questões importam: elas se somam a um conjunto enorme de atos, comportamentos, velocidades, reações e capacidade de enfrentar desafios, de forma isolada ou em equipe, que, no global, evidenciam habilidades e competências muitas vezes difíceis, ou mesmo impossíveis, de serem identificadas somente via teste padrão. As provas tradicionais somente enxergam, quando bem feitas, se as informações foram ou não assimiladas. As demandas do presente, e especialmente do futuro, vão muito além da informação pura e simples e tendem a não ter esse elemento como parâmetro central. Avaliar não ficou mais simples; ficou muito mais complexo.
A título de exemplo, optaria, preliminarmente, por uma comparação com o jazz. Observe uma banda de jazz e perceba: (i) que o público sabe identificar diferenças entre uma banda que tem qualidade de outra com menor valor; e (ii) se todos os componentes tocarem solo, também saberão, razoavelmente, identificar quem toca bem e quem não toca tão bem. Insisto nesta comparação, mais uma vez, para destacar que avaliar implica em estimular, sempre que possível, o trabalho em grupo, ressaltando o quão essencial é criar em equipe, mas que tal processo também demanda, em geral, individualizar, permitindo perceber no grupo o que cada um efetivamente fez ou deixou de fazer.
Assim, nas boas “performances” de jazz, ao longo da apresentação coletiva, cada instrumentista é convocado a tocar separadamente. Neste caso, é esperado que o solo contenha todos os compassos da música, evitando os chamados “riffs”, frases curtas e repetidas de poucas notas. Mesmo assim, talentosos músicos saberão tocar “riffs” com habilidade e competência, alterando suas notas e seus tempos.
Da diversidade e da pluralidade nascem equipes fantásticas, em que, talvez, nenhum deles, individualmente, seja tão diferenciado. Às vezes, o mais discreto e não necessariamente o mais habilidoso instrumentista pode ser, por outras razões, a mola propulsora do grupo. Há, por outro lado, casos de junção de bons músicos sem que os resultados esperados tenham emergido. Há casos desastrosos em que a banda não funciona coletivamente e nem individualmente e o som final sugere mudanças ou reprovações.
Nestes dias próximos do Dia do Professor celebremos aqueles docentes que avaliam para aprovar ou reprovar, mas que vão além. Eles o fazem para conhecer melhor os educandos e, ao conhecê-los, podem traçar trajetórias específicas que reflitam os caminhos mais adequados de um processo de aprendizagem que demanda ser, cada vez mais, personalizado, ainda que conjugado com grande escala. Parabéns especiais a esses professores que viabilizam quantidade e qualidade e que entendem que todos aprendem, todos aprendem sempre, mas cada qual aprende na sua maneira única.
(*) Ronaldo Mota é Reitor da Universidade Estácio de Sá e Diretor Executivo de Educação a Distância da Estácio

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Retrato da educação brasileira: apenas 27% dos estudantes compreendem, de fato, português


Foto:reproduçãoFoto:reprodução
Foi divulgado hoje o relatório bi-anul do movimento social "Todos Pela Educação" que durante os anos de 2013 e 2014 fiscaliza o cumprimento das cinco metas estabelecidas para educação brasileira.
As metas em questão são: 1 - Toda criança e jovem de 4 a 17 anos na escola; 2 - Toda criança plenamente alfabetizada até os 8 anos; 3 - Todo aluno com aprendizado adequado ao seu ano; 4 - Todo jovem com ensino médio concluído até os 19 anos; 5 - Investimento em educação ampliado e bem gerido.
Conforme relatório, o Brasil não conseguiu atingir as metas e de acordo com números, o país. está ainda bem distante de atingir patamar adequado tanto para ensino quanto médio. Segundo relatório, ainda é preciso incluir cerca de 2,8 milhões de crianças de 4 a 17 anos na educação básica.
Outro dado alarmante é em relação à precariedade do ensino. Conforme relatório da TPE, apenas 9,3% dos estudantes do ensino médio de fato aprenderam matemática, em 2013, enquanto 27,2% desse mesmo grupo atingiu proficiência em português. Os valores ficaram abaixo das metas definidas pelo TPE para 2013, que era de 28,3% para matemática e 39% para português.
Em relação ao ensino médio, 54,3% dos estudantes se formaram com 19 anos, 71,7% dos com 16 anos. No entanto, todos os valores ficaram abaixo da média, que era de 63,7% para estudantes com 19 anos e 84% idade de 16 anos.
Em Mato Grosso do Sul, os índices ficaram também abaixo da média. Conforme dados do relatório, apenas 49% dos estudantes com até 16 anos se formaram no ensino médio enquanto 40,6% concluíram ensino médio com 19 anos. 
No Estado, a educação básica apresentou índices melhores. Do total de estudantes entre quatro e cinco anos, 79% frequenta escola. Entre estudantes do ensino fundamental, dos seis aos 14 anos, o percentual é de 94,5%. 

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Escrever para saber ler



Mara Mansani, de São Paulo, ganhou o prêmio de Educador Nota 10 em 2014 com um projeto de alfabetização

Escrever para saber ler
Manuela Novais



Letícia Larieira
“Eram 10 cachorrinhos passeando pelo bosque, um deles ficou pobre e dos 10 ficaram 9. 1 ficou 0. Quais são os elementos que vocês identificam nesse trecho?”, perguntou a professora Mara Mansani aos seus alunos do 1º ano da Escola Estadual Laila Galep Sacker, em Sorocaba, a 50 km de São Paulo. Rapidamente, as crianças levantaram algumas hipóteses: há rimas, repetições, conta uma história, tem números e parece uma música de roda. Diante da empolgação com o texto e também da dificuldade que alguns estudantes demonstravam de aprender a ler e escrever, Mara decidiu usá-lo mais vezes em sala de aula.
Dessa ideia surgiu o projeto “Escrevendo com lengalenga”, que deu à professora o prêmio de Educadora Nota 10 da Fundação Victor Civita, em 2014. Mara foi selecionada por Beatriz Gouveia, coordenadora de projetos no Instituto Avisa Lá e docente da Pós-graduação do Instituto Vera Cruz, responsável pela seleção dos projetos de alfabetização vencedores desde 2006.
A elaboração do projeto começou no início do ano letivo de 2013, quando Mara decidiu buscar novos materiais e didáticas para incorporar em suas aulas. Após pesquisar alternativas, a educadora resolveu se inspirar nas lengalengas – cantigas da época medieval associadas ao universo infantil e a brincadeiras antigas e jogos.

Identificando as dificuldades
Durante o trabalho em sala de aula, Mara encontrou problemas com os quais todos os professores de alfabetização mais cedo ou mais tarde se deparam: dificuldades e diferentes níveis de aprendizagem na mesma turma. Diante desse cenário, a professora se incomodava pela maneira com que as crianças sempre eram alfabetizadas: principalmente por meio da memorização.
Beatriz Gouveia ressalta que isso acontece porque a linguagem ainda está descolada da sua função comunicativa nos projetos de alfabetização. Para a pedagoga, “no primeiro ano, as crianças são dadas a realizar atividades de escrita, mas com lições e atividades mais focadas no propósito didático, como se a língua não tivesse uma função comunicativa”. Na opinião dela, trabalhar com textos de sentido mais significativo é importante para a alfabetização.
É preciso escrever
Após apresentar, em sala de aula, textos de lengalenga de autores como a escritora infanto-juvenil Tatiana Belinky, Mara viu que nessas histórias havia qualidades que poderiam ajudar na alfabetização. De acordo com a professora, “as lengalengas são longas e mais complexas na estrutura textual do que uma parlenda, por exemplo; têm repetições e rimas, que são elementos ótimos para alfabetizar”.
Entretanto, Mara foi além: não apenas leu os textos com as crianças, mas as encorajou a escrevê-los também. “Ninguém escreve nada do nada; você tem que incentivar, tem que apresentar o modelo. A partir do momento que você canta, lê e brinca, aí sim você pode propor a escrita”, explica a educadora. De acordo com a selecionadora Beatriz, “a proposta conseguiu alcançar duas características: didática e comunicação; enquanto as crianças vão avançando na compreensão do tema, elas também conseguem evoluir na construção do texto”.
O processo
Para implantar o projeto, Mara dividiu a turma em grupos de 4 ou 5 alunos e, com base nos textos de lengalenga que já conheciam, cada um deveria criar a própria história. Para isso, a professora estabeleceu uma rotina semanal. “Eu começo minhas aulas todos os dias com uma leitura e uma vez por semana nós vamos à biblioteca, onde os alunos escolhem o que querem ler; ainda faço um dia na semana com uma roda para debate das leituras”, conta.
Depois de prontas as lengalengas, Mara envolveu os alunos em um projeto: transformar as histórias em um livro escrito e ilustrado por eles. Os estudantes puderam escolher como seria a diagramação e a capa e, assim, desenharam as figuras e escreveram a dedicatória.
Depois de impressos na própria escola, a professora fez uma manhã de autógrafos, para a qual os familiares foram convidados. Para Mara, envolver os pais e chamá-los a acompanhar a vida escolar dos filhos foi importante. “Essa interação ajuda muito; a confiança que o responsável tem com o desempenho escolar do filho melhora o relacionamento dos pais com a escola em geral”, ela diz.
Um projeto nota 10
Para Beatriz Gouveia, a alfabetização por meio de projetos com a turma toda pode ser importante tanto para os estudantes como para as relações familiares com a instituição. “O envolvimento família-escola-aluno é uma característica dos projetos didáticos; é um dos tipos de trabalho mais interessantes do ponto de vista das aprendizagens individuais e coletivas”, afirma. Ela acrescenta ainda que o projeto de Mara se destaca ao ressaltar a função comunicativa da língua, trazendo-a para dentro da sala de aula. “É muito interessante, porque é uma proposta comunicativa, social e que reverbera o coletivo; os alunos vão acionando esse contexto que eles vivem por meio de rimas coerentes”, explica a pedagoga.
Futuramente, Mara pretende continuar trabalhando as lengalengas com os alunos e expandir o projeto para que outras unidades de ensino e professores, até de outros anos, possam incorporá-las às práticas. Sobre o sucesso e eficácia do projeto, a educadora acredita que o segredo é “identificar as dificuldades, pesquisar o que você pode fazer pra sanar aquilo e inovar”, relata.
Aprender mais para poder ensinar melhor
Mara diz que nunca sonhou em ser professora e entrou para a carreira obrigada. “Na verdade, minha mãe me ‘forçou’ a fazer o magistério, mas naquele momento ela sabia mais da minha pessoa do que eu mesma”, lembra. A mãe estava certa: quando começou a estudar, a futura professora logo se apaixonou pela profissão e descobriu o prazer em ensinar e aprender com os alunos.

Após cursar o magistério em nível médio, Mara fez o normal superior pelo Centro Universitário Hermínio Ometto, conhecido também como Uniararas. Apaixonada pelo que faz, a professora busca sempre se atualizar e acredita em uma formação contínua. “Não fiz especialização ainda, mas faço todos os cursos propostos pela Secretaria Estadual de Educação (de São Paulo), em todas as áreas, não só da alfabetização. Faço também cursos por conta própria e também estudo bastante”, ela diz.
Para ela, a Educação precisa ultrapassar as barreiras da escola e produzir conhecimento para que as pessoas vivam melhor. “Os alunos mudam, o mundo muda, as necessidades ao longo dos tempos são outras e nós educadores temos que acompanhar e nos preparar para essas mudanças”, afirma.

Atraso escolar e trabalho forçam evasão na Educação Básica



3,1 milhões de jovens entre 15 e 19 anos ainda cursavam o Ensino Fundamental em 2013

Atraso escolar e trabalho forçam evasão na Educação Básica
João Bittar/MEC



Leticia Larieira
A Meta 1 do Todos Pela Educação (TPE) é garantir que todas as crianças e jovens de 4 a 17 anos estejam na escola. Porém, a Educação brasileira continua falhando em universalizar o ensino, principalmente no nível Médio: de acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), realizada pelo IBGE, em 2013 apenas 83,3% dos jovens brasileiros de 15 a 17 anos estavam na escola.
Quando se trata da conclusão dos estudos, os dados também são alarmantes: de acordo com a mesma pesquisa, apenas 71,7% dos adolescentes de 16 anos completaram o Ensino Fundamental e somente 54,3% dos jovens de até 19 anos se formaram no Ensino Médio.
A universalização do Ensino Médio é a meta 3 do Plano Nacional de Educação (PNE), aprovado em junho de 2014. De acordo com o plano, o País terá de aumentar para 85% a taxa líquida de matrículas na etapa, até 2016. Mas garantir o acesso não basta. O PNE também determina que será preciso enfrentar o desafio de tornar a escola mais atrativa para os jovens.
As origens do atraso
Segundo especialistas, os baixos percentuais de conclusão das etapas na idade certa podem ser explicados por alguns motivos. Entre eles, a dificuldade que os alunos encontram a partir dos Anos Finais do Ensino Fundamental em manter o fluxo escolar, já que muitos acabam reprovados ao final do ano. A repetência deriva, muitas vezes, de defasagens de aprendizagem provenientes de anos anteriores.
Devido a esse atraso escolar, os alunos acabam chegando cada vez mais velhos às etapas seguintes de ensino, o que os desmotiva a continuar estudando, e leva boa parcela dos jovens a abandonar a escola no Ensino Médio. Dado esse contexto, muitos deles enxergam na Educação de Jovens e Adultos uma alternativa para completar os estudos de forma mais rápida sem terem de frequentar uma escola onde são mais velhos do que a maioria dos outros alunos.
Com alta taxa de evasão, o Ensino Médio é um desafio para a Educação brasileira. Roberto Catelli, coordenador da unidade da Educação de Jovens e Adultos da organização não governamental Ação Educativa defende que a evasão acontece já nos Anos Finais do Ensino Fundamental, tendência que se acentua na etapa seguinte de ensino. De acordo com ele, “a partir dos 12 ou 13 anos começa a haver uma evasão da escola regular, iniciando nessa faixa etária e se entendendo até o final da Educação Básica”.
Tufi Machado Soares, doutor em Educação e coordenador da unidade de pesquisa do Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação (Caed), da Universidade de Juiz de Fora, aponta que a defasagem de aprendizagem proveniente do Ensino Fundamental e o fracasso escolar são elementos determinantes para a redução da frequência escolar dos jovens. “Há um atraso forte, uma defasagem elevada e isso faz com que boa parte dos alunos já entre no Ensino Médio com dificuldades em aprender; o Ensino Médio requer saberes anteriores que muitas vezes o Ensino Fundamental não deu conta”, afirma o professor.
Leonardo de Melo, 18 anos, diz que deixou a escola aos 17 anos, quando cursava a primeira série do Ensino Médio. “Com essa idade, eu já tinha repetido duas vezes, então fui parando de estudar”, ele diz. Depois de completar 18 anos, Leonardo retomou os estudos na EJA, onde está cursando a primeira série do Ensino Médio novamente.
Para Ricardo Henriques, superintendente do Instituto Unibanco e conselheiro do movimento Todos Pela Educação, “a evasão não é opção neutra do aluno; ela é estimulada por uma escola que não produz vínculos de atratividade para alguns perfis de jovens”. De acordo com ele, há muitos estudantes “desencantados” com a escola, sendo necessário “trazer para a pauta de discussão com os jovens a importância de continuar estudando e por que isso seria vital para a sua mobilidade social e construção de projetos de vida no futuro”.

O PNE, com vigência até 2023, estabeleceu como meta que o aprendizado dos alunos esteja adequado à idade; fomentando, assim, melhorar a qualidade de toda a Educação Básica e o fluxo escolar.
Ingresso na vida adulta
Para Tufi, outro elemento que causa a evasão escolar de boa parcela dos jovens é o ingresso no mercado de trabalho. De acordo com o professor, “devido ao atraso, eles acabam alcançando os 18 anos durante o período escolar, idade que representa um ponto de mudança na vida do jovem; muitos deles são pressionados a trabalhar para complementar a renda familiar, adiando a conclusão dos estudos naquele momento”.
Aos 12 anos, Uker Elgueta, de 20 anos, estudante da 3ª série do Ensino Médio em um curso de EJA, já começou a trabalhar com o irmão em uma microempresa de estampa de camisetas; cerca de cinco anos depois, com quase 18 anos, assumiu o negócio da família. O estudante acredita que o trabalho possa ter afetado os estudos no dia a dia; “acho que foi pelo emprego também o motivo de eu ter faltado muito na escola”, relata.
Leonardo, atualmente desempregado, também entrou cedo no mercado de trabalho, aos 16 anos. Jovem aprendiz, ele trabalhava como auxiliar de serviços gerais em uma empresa, “mesmo não tendo a necessidade de ajudar meus pais, mais por prazer mesmo; mas depois, além de comprar coisas pro meu consumo próprio, trazia dinheiro pra casa”, conta.
Ensino descolado da realidade
Em 2008, uma alteração na Lei de Diretrizes de Bases (LDB), de 1996, determinou que as disciplinas de Filosofia e Sociologia fossem incluídas no currículo do Ensino Médio, totalizando 13 matérias. Devido à base curricular extensa e conteúdos muitas vezes descontextualizados em relação ao cotidiano e à vida do estudante, muito se discute sobre uma reforma na modalidade, buscando criar maior identificação do jovem com a escola.
Segundo Tufi Machado, a quantidade de disciplinas e a falta de aplicação para a vida do jovem gera uma não identificação com a escola. De acordo com o pesquisador, “o problema do Ensino Médio está no currículo, porque é muito ligado à universidade e espera que o aluno aprenda muitas coisas não ligadas à sua realidade”. Nessa lógica, ignoram-se os diversos desejos dos alunos, como o de partir para o mercado de trabalho logo após a escola. Também não se dá a ele a chance de escolher o que deseja estudar com mais ênfase.
Desde criança, Leonardo sonha ter uma oficina de peças e acessórios para automóveis; para ele, esse antigo desejo é o maior motivador para voltar a estudar. “Quando eu acabar o Ensino Médio na EJA, pretendo iniciar meus estudos em mecânica, fazer algum curso profissional que me dê esses conhecimentos porque eu sempre tive muita vontade de aprender sobre isso”, ele conta.
Para abranger essas diferentes necessidades, “a Educação profissional pode ser um caminho para o jovem, não somente o mais relacionado à universidade”, afirma Tufi. Na opinião do professor, é preciso fazer uma revisão e uma atualização do Ensino Médio de acordo com a demanda desses jovens. Para atender a demanda de aprendizagem do aluno com perfil trabalhador, aumentar a oferta de Educação Profissional no nível médio até 2020 é a meta 11 do PNE.

Participação de mulheres em carreiras de exatas e científicas é baixa



Discriminação e direcionamento desde a Educação Básica afastam meninas dessas áreas

Participação de mulheres em carreiras de exatas e científicas é baixa
João Bittar/MEC



Pricilla Honorato
Em 2012, apenas 14% das jovens brasileiras que entraram na universidade pela primeira vez escolheram campos relacionados à ciência, incluindo engenharia, indústria e construção. Em contrapartida, 39% dos jovens do sexo masculino que entraram na universidade naquele ano optaram por seguir uma dessas áreas. É o que revela um estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Diferente do ocorria no século 19, quando as mulheres brasileiras tinham acesso restrito à Educação, hoje, o ensino é universalizado e as mulheres estudam mais do que os homens – em 2013, elas tinham mais escolaridade, 9,93 anos, contra 9,12 anos dos homens, aponta um levantamento do Movimento Todos Pela Educação (TPE), com base em dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb). Mesmo diante desses avanços, elas continuam subrepresentadas nas carreiras exatas.
Para especialistas em Educação e gênero, a lenta integração das mulheres a essas carreiras pode ser em parte explicada pelas diferenças na socialização de gênero. “As mulheres têm mais tempo de estudo, mas escolhem algo mais próximo daquilo no qual foram socializadas. Elas são criadas para cuidar e acabam escolhendo esse caminho”, explica Hildete Pereira de Melo, economista, pesquisadora na área de gênero e ciência e professora doutora da Faculdade de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF).
“As meninas aprendem cedo que exatas e científicas não é assunto para elas”, afirma Márcia Barbosa, cientista e física, chefe do departamento de Física na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e vencedora do Prêmio L'Oréal-Unesco para Mulheres na Ciência 2013. “Enquanto pequenas, os pais deixam as meninas fazerem o que elas quiserem, mas quando elas chegam aos anos finais, começa o estabelecimento de modelos a seguir”, explica.
A escolha da carreira, destaca Hildete, é o resultado de uma trajetória de sociabilização diferente entre os gêneros, cujos efeitos já aparecem na escola, em desempenhos diferentes de meninos e de meninas, de acordo com a disciplina. Segundo o levantamento do TPE, ao final do Ensino Médio, é menor a porcentagem de meninas do que a de meninos que atingem desempenho em matemática considerado adequado. A distância é de 5,5 pontos percentuais. Saiba mais aqui. 
Universidade, mercado e discriminação
Entre meninas que optaram pela carreira de engenharia está Isabella Faria, de Itapecerica (MG). Ainda bem jovem, no 8º ano do Ensino Fundamental, ela já sabia o que faria da vida. Seria engenheira mecânica, carreira com um quadro de 79,4% de homens, de acordo com dados do dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) do Ministério do Trabalho.
Algumas pessoas próximas contestaram a escolha da jovem, mas não a mãe da garota, ela própria matemática, física, professora e grande incentivadora da carreira da filha. Em 2012, Isabella deu início ao curso de Engenharia Mecânica na Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) em uma turma com apenas quatro meninas.
As disciplinas de exatas não foram problema para a jovem, pelo contrário. O verdadeiro desafio foi outro: o preconceito. “Havia um professor de desenho técnico no 1º ano que quando eu terminava a lição antes de todos, ele dizia: ‘Vocês vão deixar uma menina terminar antes de vocês?’”, relembra. “Para ele, lugar de mulher é dando aula, como a esposa dele, e não na mecânica”.
A cientista Márcia Barbosa acumula uma experiência de 40 anos na área e ainda hoje se empolga com a escolha que fez ainda no Ensino Médio, em Canos (PR). “A sensação de descobrir algo é maravilhosa”, afirma. Guiada pela curiosidade, desde menina eu “fuçava nas coisas”. “Meu pai era militar e eletricista e sempre nos chamava para aprender com ele, nunca houve diferença entre mim e meu irmão, que mais tarde se tornou engenheiro”, conta.
Se da família Márcia obteve incentivo, o mesmo não poder ser dito sobre a universidade. “Vi que minha trajetória não seria fácil quando entrei na primeira aula de física da universidade: havia 8 meninas em 80 alunos”, lembra. “Nessa caminhada, muitas vezes eu recebi a mensagem: isso não é para você, você não é bem-vinda”.
Isabella viveu algo semelhante. “Logo que entrei na faculdade, entendi que se eu e um homem tivéssemos o mesmo currículo, ele seria contratado e eu, não”. Consciente da discriminação, a jovem decidiu que estudaria muito mais e se envolveria em mais projetos. Era, segundo ela, a forma de garantir que nenhum homem a deixaria para trás.
Infelizmente, continua para a estudante a sensação de que ela precisa fazer mais do que eles e, por isso, Isabella mantém a agenda acadêmica cheia. Com apenas as noites de sexta-feira livres, ela já esteve envolvida com projetos como aero design, futebol de robô, monitoria de matemática e estágio de férias. Atualmente, faz Iniciação Científica em automação de drones e integra a Empresa Júnior do Departamento de Mecânica.
Tudo isso para garantir que casos como o que viveu durante um estágio de férias em uma empresa do ramo automobilístico não voltem a ocorrer. Isabella ouviu de uma funcionária de recursos humanos que ela só havia sido contratada porque não havia nenhum rapaz concorrendo. “Já meu encarregado disse que não teve nenhum problema comigo. Às vezes, as mulheres têm mais preconceitos do que os homens”, lamenta.
Mulher na ciência
Na pesquisa científica, as mulheres também têm baixa representatividade. Embora elas preencham metade do quadro total de pesquisadores do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), ainda são minoria na área das ciências exatas, com apenas 20% de pesquisadoras na Física, por exemplo, e 13% na Engenharia Elétrica. O levantamento indica também que quanto maior a posição hierárquica, menor o número de mulheres.
Inúmeros são os desafios enfrentados pelas mulheres nas carreiras científicas. Um deles está relacionado ao papel da mulher dentro da unidade familiar como mãe e esposa. De um lado, há mulheres que se afastam da carreira pela família, de outro, há cientistas que abdicam da vida familiar. Ambas partilham a perspectiva de que carreira e vida familiar não combinam, explica Márcia.
“No século 19, a mulher não tinha vida pública e vivia em casa. A partir do século 20, a mulher foi para a vida pública, mas precisou começar a fingir que não tem família. Elas não gostam nem de mencionar que vão sair mais cedo porque precisam pegar o filho no colégio”, afirma.
Para a cientista, é preciso garantir, por meio de políticas públicas, que as mulheres possam exercer carreiras científicas ou exatas sem culpa. “Sair mais cedo não pode ser um empecilho para o sucesso na carreira. É preciso construir um ambiente de trabalho em que as pessoas possam ter vida pública e vida privada”, sustenta.
Apenas em novembro de 2012, bolsistas grávidas do CNPq passaram a gozar de licença-maternidade remunerada; antes disso, a bolsa era suspensa durante esse período. Para Márcia, essa é uma evidência que muitas vezes os gestores falham com as mulheres. “A maternidade torna as coisas difíceis porque o Estado não provê creches, porque os gestores – que definem as regras de trabalho e proteção na carreira – não incorporam a maternidade dentro das ações de amparo. Isso é absurdo”, critica.
 

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Prioridade de campanha, educação é deixada de lado na gestão Reinaldo

Governador entrou em guerra com os professores; precisou recuar em projeto sobre eleições escolares e não investiu em melhoria nas estruturas das escolas


(foto: Geovanni Gomes / arte: Carla Patrícia)
Considerada uma das prioridades do governador Reinaldo Azambuja (PSDB) durante a campanha eleitoral do ano passado, a educação foi deixada de lado durante os seis primeiros meses da administração tucana. Além de não cumprir o estabelecido no plano de governo registrado no TRE (Tribunal Regional Eleitoral), o governador entrou em 'guerra' com a categoria dos professores, que exigem o cumprimento do Piso Nacional da Educação Básica.

No projeto intitulado ‘Mato Grosso do Sul: Seriedade e Inovação para Mudar’, Reinaldo elencou como prioridades de seu plano de governo “valorizar efetivamente o profissional da educação”; “cumprir com a Lei do Piso Salarial Profissional Nacional”, além de “realizar concurso público e contratar profissionais para o quadro permanente das escolas”, mas as suas primeiras ações caminham na contramão do prometido.

Em seu plano de governo, Reinaldo destaca que “é necessário que o governo estadual olhe com atenção e cuide dos profissionais da área de educação. São eles que diariamente ajudam cada um dos sul-mato-grossenses a encontrar um caminho melhor e mais digno para suas vidas”, mas manteve postura irredutível e se recusou a dar reajuste para categoria. Segundo ele, a data-base do aumento dos servidores foi antecipada para dezembro pelo ex-governador André Puccinelli (PMDB).

Apesar de abrir um canal de diálogo com os representantes dos profissionais através do Fórum Dialoga, Reinaldo chegou a acusar a Fetems (Federação dos Trabalhadores em Educação de Mato Grosso do Sul) de manipular os professores conforme seus interesses políticos. Em anúncios institucionais veiculados na rádio e na televisão, ele alegou que Mato Grosso do Sul paga 38,84% acima do Piso Salarial Nacional, ficando em terceiro lugar no ranking de salários entre os estados, e que o salário médio de um professor de graduação é de R$ 5.561,90, informação que foi rebatida pelos próprios professores.

Em outras ocasiões, o governador até se comprometeu a terminar a implantação do piso nacional de 20 horas/aula para a categoria, mas em diversas parcelas, sendo que a integralização do salário seria alcançada somente em 2022, três anos após o atual mandato. Considerando que o Senado aprove o fim da reeleição para o Executivo, uma vez que a matéria já foi aprovada na Câmara Federal, ele fez bondade com o 'chapéu alheio', assim como acusou André Puccinelli (PMDB), que teria deixado um “pacote de bondades” para ser pago por seu sucessor.

Após discussão judicial e um protesto que reuniu mais de 3 mil professores na Assembleia Legislativa, o Governo do Estado entrou em acordo com a categoria apenas após intervenção judicial. Conforme a proposta que deu fim à greve, o Piso Salarial será integralizado em outubro de 2021 - dois anos após o atual mandato -; a diferença de 1/3 de hora-atividade, referente a 2013, será paga a partir do ano que vem; e o Estado vai convocar 1000 professores aprovados em concurso, metade em julho de 2015 e a outra metade em janeiro de 2016.

Outras promessas de campanha que ainda precisam ser implantadas almejam a incorporação das “tecnologias como instrumentos de melhoria da prática pedagógica”, a modernização das escolas rurais e a descentralização das decisões e da gestão da educação, além de “proporcionar maior autonomia para o gestor escolar”. A Secretaria de Educação chegou a enviar um projeto de lei para alterar as regras nas eleições para a direção escolar, mas não teve aceitação entre a classe e retirou a proposta para nova redação.

Ainda de acordo com o diagnóstico disponível em seu plano de governo, Reinaldo afirma que o “Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) [em Mato Grosso do Sul] é o pior da região Centro-Oeste. As taxas de reprovação são as maiores do Centro-Oeste e gasta-se mais de R$ 800 milhões com a reprovação e abandono dos alunos, recursos que poderiam ser empregados para melhorar a oferta da educação nas escolas. O problema se agrava quando se constata que o maior gargalo na área está na oferta de creches para as crianças de 0 a 3 anos”.

Considerando esses gargalos, no texto, o governador se compromete a auxiliar os municípios na atenção básica de forma a transformar “a educação pública um instrumento para a redução das desigualdades sociais e dos níveis de violência”. Além dos recursos que ele promete repassar aos municípios, ele também garantiu que iria fortalecer a UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul) e somar esforços para melhorar a qualidade da mão de obra através do ensino profissional, mas nenhuma ação concreta foi realizada.

Entre os compromissos para longo prazo, Reinaldo também sinalizou “apoio sistemático para a implantação de escolas de tempo integral nas regiões onde os índices de violência são elevados”; “estimular a participação das famílias na elaboração dos projetos político-pedagógicos da escola” e “resgatar o ensino médio, acoplando-os aos esforços para apoiar e expandir o ensino profissional, alavanca prioritária para a melhoria da escolaridade e da qualidade da mão de obra disponível do mercado”. O prazo para conclusão das propostas acaba em dezembro de 2018.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

A valorização dos profissionais da Educação como pilar da qualidade


Por Roberto Leão 
Muito se fala sobre a valorização dos profissionais de Educação — que é um dos pilares da qualidade de ensino socialmente referencia- da, ao lado do financiamento e da gestão democrática. Falar de valorização implica aprimorar a formação inicial, a formação continuada, a definição de um piso salarial e, também, da carreira do professor.
Uma carreira bem estruturada tem uma virtude principal: permite que o profissional de Educação projete o seu futuro, tenha perspectiva de trabalho e de vida. Contudo, há ainda muito a avançar na construção de uma carreira, a começar pelo fato de que temos no Brasil uma estrutura educacional que permite 5.565 sistemas municipais de ensino, 26 sistemas estaduais, mais um do DF e mais um federal. Cada um deles tem autonomia para gerenciar seu pessoal.
A carreira pressupõe que o ingresso se dê por concurso, que o trabalho seja valorizado e que seja levado em conta o que o professor produz, o que ele cria. Precisamos lembrar que as escolas públicas se caracterizam por uma grande diversidade de contextos e as chama- das boas práticas educativas não vêm prontas, precisam ser criadas pelos professores. Isso também deve ser reconhecido para que o professor se sinta valorizado dando aula.
Há outro ponto essencial a ser enfrentado quando a questão é a carreira. Hoje, na maior parte dos planos existentes, para que os professores avancem na carreira, cheguem a postos mais altos e ganhem mais, eles necessariamente têm de sair da sala de aula, tornando-se supervisores, coordenadores ou diretores. Muitas vezes, um ótimo professor alfabetizador deixa a sala de aula para ser um diretor mediano. Seria muito melhor que tivesse continuado como docente. Por isso, um plano de carreira precisa ser aberto, permitindo que todos possam alcançar as referências superiores, mesmo que queiram ficar a vida inteira na sala de aula. Nesse modelo, quem se interessar em mudar, sair da sala, poderá mudar — mas também quem quiser continuar sendo professor poderá assim mesmo progredir. Temos de derrubar muitos tabus para que a sociedade compreenda que todos têm papéis importantíssimos na escola, ainda que desempenhem funções diferentes.
Isso vale também para as promoções. O professor tem de ser incentivado a progredir, a criar maneiras de trabalhar que permitam aos alunos melhor aprendizagem, tanto no que se refere ao domínio dos conteúdos curriculares como nos aspectos formativos mais amplos da cidadania. Nesse contexto, a titulação deve, sim, ser valorizada. Na medida em que o professor for buscando aperfeiçoamento, isso precisa ser valorizado. No âmbito do CNTE, defendemos que a diferença salarial entre os professores que têm nível médio e os universitários precisam ser de pelo menos 50% para estimular que haja aperfeiçoamento.
Outro ponto importante a ser considerado na proposição de um bom plano de carreira é a visão sobre todos os profissionais da Educação. Na escola, não é apenas o professor que educa. Cada profissional que atua na escola — a merendeira, o porteiro, o inspetor — possui um papel educativo, e seu papel não pode ser equiparado ao de profissionais que exercem funções semelhantes, em outros contextos, como nas empresas. Imagine-se, por exemplo, um segurança que apanhe um garoto pulando o muro da instituição. Na empresa, será tratado como um infrator; na escola, o olhar é o da medida socioeducativa, do diálogo sobre regras, da Educação. É preciso lembrar, inclusive, que a Lei de Diretrizes e Bases da Educação já traz emba- samento legal para que haja uma carreira única na Educação na qual todos os profissionais possam evoluir, na medida de sua qualificação.
O plano de carreira deve ainda levar em conta outro aspecto funda- mental para a qualidade de ensino e para a perspectiva profissional do educador: a jornada. O professor divide seu tempo em jornadas. É isso que define o piso salarial, por exemplo. Contudo, uma vez que existe a perspectiva de ampliação do tempo escolar para um número crescente de redes, é preciso ressaltar o quanto é importante que se possa fixar o docente na escola, criando vínculos com o aluno e coma comunidade.
O professor não pode mais ficar sujeito, como fica hoje, aos sobressaltos de uma escolha de aula, sem saber para onde vai, ano a ano. Há unidades da federação que permitem que o mesmo professor dê até 64 aulas semanais, o que obviamente é inviável, desgastante e impede um trabalho mais individualizado com os alunos e um trabalho de longo prazo. Na realidade de hoje, há uma grande rotatividade de professores e muita instabilidade gerada por isso. Se conseguirmos fixar o professor na escola, em uma jornada única, isso permitiria grandes avanços, sobre todos os pontos de vista, inclusive do ponto da gestão democrática. Com muita frequência, o professor participa da construção de um projeto político pedagógico em um ano e no outro está longe, em outra escola.
Em torno de todas essas questões que envolvem o Plano de Carreira, há um tema de fundo: hoje, os professores não têm perspectivas de futuro e vivem aos sobressaltos. Precisamos de tranquilidade, o que não é para nós sinônimo de acomodação. Precisamos ter condições de nos aprimorarmos sempre, e carreira precisa refletir isso. Não há nenhum problema com a avaliação – mas é preciso que se leve em conta todo o contexto em que o ensino é oferecido: as condições materiais de trabalho, a situação social, o papel de todos os gestores da rede e do sistema. Não há mérito nenhum em dizer que o culpado é sempre o professor.
Evidentemente, a discussão da valorização do professor se entrecruza com outras, contempladas no Plano Nacional de Educação — entre elas, principalmente, a do financiamento público. A meta 17 estabelece, por exemplo, que o salário médio deve se equiparar ao de profissionais de mesma formação. Hoje, estamos muito longe disso. Mais do que encontrar fontes de financiamento, como os famosos royalties do petróleo, é preciso definir o seu uso — senão veremos pirâmides, monumentos e pouco investimento de fato em qualidade na Educação.