quinta-feira, 11 de junho de 2015

Participação de mulheres em carreiras de exatas e científicas é baixa



Discriminação e direcionamento desde a Educação Básica afastam meninas dessas áreas

Participação de mulheres em carreiras de exatas e científicas é baixa
João Bittar/MEC



Pricilla Honorato
Em 2012, apenas 14% das jovens brasileiras que entraram na universidade pela primeira vez escolheram campos relacionados à ciência, incluindo engenharia, indústria e construção. Em contrapartida, 39% dos jovens do sexo masculino que entraram na universidade naquele ano optaram por seguir uma dessas áreas. É o que revela um estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Diferente do ocorria no século 19, quando as mulheres brasileiras tinham acesso restrito à Educação, hoje, o ensino é universalizado e as mulheres estudam mais do que os homens – em 2013, elas tinham mais escolaridade, 9,93 anos, contra 9,12 anos dos homens, aponta um levantamento do Movimento Todos Pela Educação (TPE), com base em dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb). Mesmo diante desses avanços, elas continuam subrepresentadas nas carreiras exatas.
Para especialistas em Educação e gênero, a lenta integração das mulheres a essas carreiras pode ser em parte explicada pelas diferenças na socialização de gênero. “As mulheres têm mais tempo de estudo, mas escolhem algo mais próximo daquilo no qual foram socializadas. Elas são criadas para cuidar e acabam escolhendo esse caminho”, explica Hildete Pereira de Melo, economista, pesquisadora na área de gênero e ciência e professora doutora da Faculdade de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF).
“As meninas aprendem cedo que exatas e científicas não é assunto para elas”, afirma Márcia Barbosa, cientista e física, chefe do departamento de Física na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e vencedora do Prêmio L'Oréal-Unesco para Mulheres na Ciência 2013. “Enquanto pequenas, os pais deixam as meninas fazerem o que elas quiserem, mas quando elas chegam aos anos finais, começa o estabelecimento de modelos a seguir”, explica.
A escolha da carreira, destaca Hildete, é o resultado de uma trajetória de sociabilização diferente entre os gêneros, cujos efeitos já aparecem na escola, em desempenhos diferentes de meninos e de meninas, de acordo com a disciplina. Segundo o levantamento do TPE, ao final do Ensino Médio, é menor a porcentagem de meninas do que a de meninos que atingem desempenho em matemática considerado adequado. A distância é de 5,5 pontos percentuais. Saiba mais aqui. 
Universidade, mercado e discriminação
Entre meninas que optaram pela carreira de engenharia está Isabella Faria, de Itapecerica (MG). Ainda bem jovem, no 8º ano do Ensino Fundamental, ela já sabia o que faria da vida. Seria engenheira mecânica, carreira com um quadro de 79,4% de homens, de acordo com dados do dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) do Ministério do Trabalho.
Algumas pessoas próximas contestaram a escolha da jovem, mas não a mãe da garota, ela própria matemática, física, professora e grande incentivadora da carreira da filha. Em 2012, Isabella deu início ao curso de Engenharia Mecânica na Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) em uma turma com apenas quatro meninas.
As disciplinas de exatas não foram problema para a jovem, pelo contrário. O verdadeiro desafio foi outro: o preconceito. “Havia um professor de desenho técnico no 1º ano que quando eu terminava a lição antes de todos, ele dizia: ‘Vocês vão deixar uma menina terminar antes de vocês?’”, relembra. “Para ele, lugar de mulher é dando aula, como a esposa dele, e não na mecânica”.
A cientista Márcia Barbosa acumula uma experiência de 40 anos na área e ainda hoje se empolga com a escolha que fez ainda no Ensino Médio, em Canos (PR). “A sensação de descobrir algo é maravilhosa”, afirma. Guiada pela curiosidade, desde menina eu “fuçava nas coisas”. “Meu pai era militar e eletricista e sempre nos chamava para aprender com ele, nunca houve diferença entre mim e meu irmão, que mais tarde se tornou engenheiro”, conta.
Se da família Márcia obteve incentivo, o mesmo não poder ser dito sobre a universidade. “Vi que minha trajetória não seria fácil quando entrei na primeira aula de física da universidade: havia 8 meninas em 80 alunos”, lembra. “Nessa caminhada, muitas vezes eu recebi a mensagem: isso não é para você, você não é bem-vinda”.
Isabella viveu algo semelhante. “Logo que entrei na faculdade, entendi que se eu e um homem tivéssemos o mesmo currículo, ele seria contratado e eu, não”. Consciente da discriminação, a jovem decidiu que estudaria muito mais e se envolveria em mais projetos. Era, segundo ela, a forma de garantir que nenhum homem a deixaria para trás.
Infelizmente, continua para a estudante a sensação de que ela precisa fazer mais do que eles e, por isso, Isabella mantém a agenda acadêmica cheia. Com apenas as noites de sexta-feira livres, ela já esteve envolvida com projetos como aero design, futebol de robô, monitoria de matemática e estágio de férias. Atualmente, faz Iniciação Científica em automação de drones e integra a Empresa Júnior do Departamento de Mecânica.
Tudo isso para garantir que casos como o que viveu durante um estágio de férias em uma empresa do ramo automobilístico não voltem a ocorrer. Isabella ouviu de uma funcionária de recursos humanos que ela só havia sido contratada porque não havia nenhum rapaz concorrendo. “Já meu encarregado disse que não teve nenhum problema comigo. Às vezes, as mulheres têm mais preconceitos do que os homens”, lamenta.
Mulher na ciência
Na pesquisa científica, as mulheres também têm baixa representatividade. Embora elas preencham metade do quadro total de pesquisadores do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), ainda são minoria na área das ciências exatas, com apenas 20% de pesquisadoras na Física, por exemplo, e 13% na Engenharia Elétrica. O levantamento indica também que quanto maior a posição hierárquica, menor o número de mulheres.
Inúmeros são os desafios enfrentados pelas mulheres nas carreiras científicas. Um deles está relacionado ao papel da mulher dentro da unidade familiar como mãe e esposa. De um lado, há mulheres que se afastam da carreira pela família, de outro, há cientistas que abdicam da vida familiar. Ambas partilham a perspectiva de que carreira e vida familiar não combinam, explica Márcia.
“No século 19, a mulher não tinha vida pública e vivia em casa. A partir do século 20, a mulher foi para a vida pública, mas precisou começar a fingir que não tem família. Elas não gostam nem de mencionar que vão sair mais cedo porque precisam pegar o filho no colégio”, afirma.
Para a cientista, é preciso garantir, por meio de políticas públicas, que as mulheres possam exercer carreiras científicas ou exatas sem culpa. “Sair mais cedo não pode ser um empecilho para o sucesso na carreira. É preciso construir um ambiente de trabalho em que as pessoas possam ter vida pública e vida privada”, sustenta.
Apenas em novembro de 2012, bolsistas grávidas do CNPq passaram a gozar de licença-maternidade remunerada; antes disso, a bolsa era suspensa durante esse período. Para Márcia, essa é uma evidência que muitas vezes os gestores falham com as mulheres. “A maternidade torna as coisas difíceis porque o Estado não provê creches, porque os gestores – que definem as regras de trabalho e proteção na carreira – não incorporam a maternidade dentro das ações de amparo. Isso é absurdo”, critica.
 

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